Uma nova armadilha para George W. Bush
José Arbex analisa a vitória do Hamas nas eleições palestinas e avalia que a ameaça dos EUA e dos europeus de cortarem o fluxo de dinheiro dos palestinos é, em grande parte, um blefe"Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" a pérola da sabedoria popular descreve agora, com exatidão, a situação enfrentada pelos Estados Unidos no Oriente Médio, após a espetacular vitória eleitoral do Hamas na Palestina (76 das 132 cadeiras do Parlamento). Com isso, o Hamas tem o direito democrático de indicar o novo primeiro-ministro da Autoridade Palestina. Ironia da história: o cargo foi criado, em 2003, por imposição dos Estados Unidos, justamente para permitir uma contraposição ao poder absoluto então exercido pelo presidente Yasser Arafat. O que a Casa Branca vai fazer agora? As duas respostas
mais imediatas não servem: Washington não pode admitir a vitória democrática do Hamas, e manter tudo como se nada tivesse acontecido, pois o Hamas não reconhece o Estado de Israel e mantém uma política de resistência ao império; mas Washington tampouco pode rejeitar os resultados das urnas, já que as eleições foram reconhecidas como limpas e isenta de fraudes, até mesmo por observadores internacionais "acima de qualquer suspeita", como o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter.O Hamas (Movimento de Resistência Islâmico) foi criado em 1987, no contexto político que resultou na Primeira Intifada (8 de dezembro daquele ano), quando jovens palestinos que viviam nos territórios ocupados enfrentaram com pedras os tanques e os soldados de Israel. Na ocasião outra ironia da história , a criação do Hamas foi apoiada por Israel, que entendeu o seu surgimento como um meio de enfraquecer o principal grupo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o Fatah, então liderado por Yasser Arafat. Coerente com os seus princípios, o Hamas propõe a destruição do Estado judeu, não reconhece os Acordos de Oslo e organiza ataques armados, incluindo os "homens-bomba", que resultaram na morte de centenas de civis israelenses. A coerência, aliás, é uma das explicações para a sua estrondosa vitória eleitoral: ao longo de sua história, nunca
houve qualquer episódio envolvendo corrupção (marcante no governo da Fatah). Além disso, o Hamas dedica um forte apoio às populações mais pobres, incluindo assistência médica e social. Com essa trajetória, o Hamas tornou-se o destino natural dos votos da maioria da população palestina, frustrada pelo fracasso de Oslo.AJUDA INTERNACIONAL
O dilema sobre o que o império vai fazer daqui para frente aparece com clareza, no momento, sob a forma do debate em torno da ajuda internacional à Palestina. Estados Unidos e União Européia ameaçam cortar o fluxo de dinheiro para os palestinos, se o Hamas não reconhecer o Estado de Israel e se não renunciar publicamente à resistência armada. Em grande parte, a ameaça é um blefe, por uma razão muito simples: o corte da ajuda empurraria o Hamas para os braços abertos do Irã, que tem muito dinheiro, graças às exportações do petróleo, e que é também vítima do cerco imperialista. Essa aproximação teria
um efeito absolutamente desastroso para os Estados Unidos e para Israel. Abriria as portas para ações conjuntas do Hamas com o Hizbolá (Partido de Deus), grupo que atua no sul do Líbano, apoiado pelo Irã e responsável, entre outras coisas, pela expulsão do Exército israelense daquela região. É claro que o Irã, de sua parte, tem todo interesse na aproximação, por manter viva a perspectiva da expansão da revolução islâmica iniciada em 1979.Assim, cortar a ajuda internacional pode piorar tudo para os Estados Unidos e para Israel. Mas mantê-la, simplesmente, legitimaria o poder do Hamas, organização acusada de "terrorismo" pelo presidente George W. Bush. Isso teria, certamente, um efeito ainda maior de estímulo à resistência dos povos no Iraque e no Afeganistão, além de agitar os grupos islâmicos que produzem um inferno diário na vida da monarquia saudita. Mesmo os mais fiéis apoiadores de
Bush reconhecem o absoluto fracasso de sua "guerra ao terror". Washington, após ter conseguido a proeza de tirar do Iraque o único ditador capaz de conter as facções mais extremas do fundamentalismo islâmico, agora ameaça produzir a proeza ainda maior de unificá-los em alguns dos países mais importantes do Oriente Médio. Não é pouca coisa. A saída mais cômoda para Bush seria uma "acomodação" do Hamas, sua "moderação" após a chegada ao poder (o povo brasileiro já conhece o filme), como aconteceu com o Exército Republicano Irlandês (IRA), que depôs as armas para lutar no parlamento. Mas as chances para isso são pequenas, dada o quadro explosivo da situação.É claro que nada disso significa o fim ou a diminuição do sofrimento das populações do Oriente Médio, incluindo, em escala menor, a do povo judeu. Ao contrário. As perspectivas são sombrias, com novas possibilidades de guerra civil (por exemplo, entre as forças da Fatah e a do Hamas), ou mesmo eclosão de lutas em grande escalas (já que Israel, por exemplo, declarou-se contra a perspectiva de negociar com o Hamas). Ninguém, absolutamente ninguém tem como dizer o que acontecerá. Como disse, em
tom bem-humorado, um dos debatedores de um programa da rede britânica BBC, especialmente dedicado ao tema no dia 30 de janeiro: "A vitória do Hamas mostrou pelo menos uma coisa muito importante ao mundo: os correspondentes, os analistas e os comentaristas internacionais não entendem nada do que se passa no Oriente Médio, e muito menos na Palestina". Faltou acrescentar a Casa Branca à lista dos que nada sabemhttp://www.brasildefato.com.br/v01/impresso/153/internacional/materia.2006-02-04.6244190138

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